Numa manhã do mês de novembro do ano passado, estive no Flamengo para uma conversa com a treinadora Keli Kitaura. Sempre admirei o trabalho da Keli com treinadora. Sempre acreditei no potencial dela e agora, depois da conversa que tive nesse dia, admiro e acredito mais ainda! Ainda não conhecia o Francisco Porath de perto. Havia visto ele nos brasileiros acompanhando a equipe de Guarulhos, mas não sabia o nível de relacionamento dele com a Keli e não imaginava que a contribuição dele com a ginástica era tão profunda. Resultado: minha admiração pela Keli se estende á ele. Agradeço aos dois, mas agradeço a Keli por confiar em mim, deixar eu acompanhar o treinamento dela tão de perto, e deixar a conversa fluir da forma tranquila como foi. O que era apenas uma conversa virou informações que eu vou compartilhar com vocês. Aproveitem!
Sobre a ida pro Flamengo
“Comecei um trabalhos sério com o Xico em Guarulhos. Ficamos um tempo lá, onde treinamos a Rebecca, a Milena, a Mariana Oliveira e a Priscila Cobello. Saímos de lá e fomos pra Curitiba. Ficamos um ano em Curitiba e quando saímos, eu e o Francisco, recebemos propostas de outros clubes. Mas, para mim, o Flamengo foi o mais interessante, mesmo porque os Jogos Olímpicos serão aqui. Eu tive que pensar no melhor… sei que tem vários clubes com estrutura boa, mas eu tive que pensar não só em mim como nas duas que estavam comigo (Rebecca e Milena, já que Mariana e Priscila ficaram em Curitiba). Não dá pra elas, que são pequenas, treinarem sozinhas, sem espelho, sem nenhuma atleta mais velha como referência. Aqui elas têm Jade, Daniele, Gabriela.”
Sobre o talento das meninas
“A Milena foi campeã sul-americana juvenil, ganhou da Rebecca. A Rebecca caiu três vezes durante a competição. A Milena é muito esforçada. Falando de talento, ela é bem mais limitada do que a Rebecca, mas o esforço dela em treino é muito maior. Ela treina, treina, treina, faz, repete! Mil vezes! Às vezes o Xico reclama: ”você ajuda mais a Milena do que qualquer outra”, mas não é isso. Ela precisa de mais ajuda. A Rebecca, se eu ajudo uma vez, depois vai bem sozinha. Quando a Milena ganhou o sul-americano eu fiquei muito feliz. Não que eu não queira que a Rebecca ganhe, longe disso, mas é bom que elas tenham uma rivalidade. Isso faz elas quererem melhorar. No infantil a Rebecca ganhou tudo: equipes, individual geral e todos os aparelhos. Aí ela chegou no campeonato juvenil muito confiante, achando que era boa e ia ganhar tudo. Aí veio a Milena e ganhou. Quando chegou na próxima competição a Rebecca já ficou mais esperta.”
Quando as meninas começam na competição adulta
“A próxima a subir é a Isabelle (Retamiro). Mas só daqui a dois anos. Ela ainda tem dois anos pela frente de juvenil. A gente briga muito com ela, e tenta colocar mais responsabilidade nela. Mas aí ela chega no campeonato e ganha. Por isso, ela acaba relaxando. Mas tem uma coisa: no campeonato brasileiro juvenil, tem a categoria “de cima” e a “de baixo”. A Rebecca ficou dois pontos á frente da Isabelle na categoria de baixo. Na verdade, a Rebecca poderia ter ganho de todas. A Lorrane foi a que chegou mais próximo da Rebecca, e assim porque caiu da trave. Se tivesse feito um solo melhor e não tivesse tido queda, teria ficado pertinho dela. O objetivo é 2016, é o que a gente quer. Mas pra isso precisa de dedicação também da parte delas. Você vê, em alguns momentos, que elas podem mais. Ás vezes tem uma muito talentosa. A outra é muito esforçada. Quem se sai melhor? Dá vontade de juntar uma com a outra!”
Sobre a polêmica sobre a Rebecca e o duplo esticado (confira aqui)
“Ela ficou muito feliz de estar sendo citada. Ficou muito mais motivada! Ficou um pouco brava com os comentários e queria escrever um monte de coisas, mas não deixei. Alguém comentou que o duplo esticado dela estava “barboseado”, isso num sentido negativo. Ela não é inocente e entendeu o que a pessoa quis dar a entender, entendeu que isso era uma crítica. Ao invés de ficar chateada, ela disse: “se está igual ao da Jade, então está bom. Eu adoro o duplo esticado da Jade!” A gente sabe que está com falhas técnicas, que ainda está um pouquinho carpado. Mas vale lembrar que ela tem só doze anos. Eu não ia colocar na competição. Na verdade fiquei até com medo! Mas o Xico que me estimulou, dizendo: “se a gente não começar a colocar ela pra fazer desde agora, quando vamos colocar?” Aí ela fez. Mas deixei só pra final por aparelhos mesmo, quando ela fez, também, o yurchenko com uma pirueta e meia no salto, e a saída de duplo carpado da trave. Ela já tinha ganho o principal, que era a final por equipes e individual geral. Então colocamos na final, pra ela arriscar, lidar com a pressão e tudo mais. Da próxima vez que ela fizer já vai estar bem melhor!”
Sobre o trabalho na paralela
“A gente sabe que o Brasil está fraco nesse aparelho. Na verdade, está muito fraco. Por enquanto, estamos tendo resultados normais, mas no geral está todo mundo fraco. Pro campeonato sul-americano não tinha ninguém pra competir com a gente. Mas pensando em lá fora, estamos muito fracos. A Rebecca ainda precisa de passagens pra barra baixa e largada, porque o resto ela já tem tudo. Faz saída de tsukahara e treina a saída da Mustafina, sobe de chinesinha, está treinando o shaposhinikova e estamos treinando todas as largadas. Ela treina comanecci, tkachev e gienger. Estamos começando o trabalho na cubital agora. No fim do ano a gente treina muito elemento novo, porque as competições acabaram. Estamos treinando vários elementos, porque o Brasil está muito fraco nesse aparelho. Não são apenas as pequenas: todas estão muito fracas. Estamos obrigando todas a usarem luvas e a nossa prioridade é a paralela. A sequência é: aquecimento, preparação física e paralela. O mínimo que elas têm que fazer são as exigências. A gente tinha que ter um especialista na paralela pra poder ajudar a gente. A Georgette disse que não quer trazer alguém de fora pra tirar o lugar da gente, mas sim pra ajudar a gente! Graças á Deus ela está valorizando muito os treinadores brasileiros e isso é muito importante. Precisamos evoluir e ter novas experiências, e foi por isso que eu sai de Curitiba, pra começar a evoluir! A gente treina, treina, treina a ginasta e na hora de competir é a gente que tem que ir! É muito ruim ter que entregar a ginasta pra outra pessoa na hora da competição…”
Entrevista com Francisco Porath
GBB: Pouca gente te conhece como técnico, mas você foi o responsável pela descoberta do talento Priscila Cobello. Como aconteceu isso?
FP: Ela fazia ginástica em São Roque. Mais ou menos uns quatro meses antes de começarmos o trabalho em Guarulhos, ela foi pra Guarulhos. Ela tinha 13 anos nessa época. Não fazia nada, era apenas um talento escondido. Com apenas 3 anos de treinamento ela conseguiu entrar na seleção. Ela conseguiu aprender mais ou menos 7 anos em 3 anos. Priscila é muito esforçada e merece estar onde está.
GBB: Como foi o treino dela, já que ela era mais velha? Você acelerou o treino? Ela respondeu bem?
FP: Na verdade ela tem um biotipo muito bom pra ginástica. Ela queria muito. Queria muito mais do que as outras que já tinha lá. Elas já eram muito melhores e faziam muitos exercícios, e ela não. Acontece que ela queria muito mais que as outras. Então comecei a ensinar salto e paralela. Ela só fazia giro na paralela, nem giro invertido ela fazia direito. Ela era muito coordenada no solo e o ginásio tinha um fosso bom. Dei muitos exercícios na cama elástica e isso foi acelerando, somado com as condições dela. Assim que ela começou a absorver bem a nova preparação física, os exercícios foram só melhorando.
GBB: Esse ano vocês não ficaram juntos mais. Agora, com a vinda dela para o Flamengo, você está perto de novo. Você acha que isso pode influenciar no rendimento do treino dela? Aparentemente ela está mais feliz?
FP: Quando ela entrou na seleção, eu já queria que ela fosse pra outro clube. Lá em Guarulhos ela não tinha mais espelho. Tínhamos uma dificuldade grande em nos adaptar os aparelhos, que eram muito ruins. Ela nunca competia tão bem o brasileiro quanto os regionais. Eu não estava conseguindo extrair mais dela lá. Começou a ficar complicado porque a gente tinha uma equipe de pequenas muito boas… A atenção foi ficando muito dividida, com muito trabalho, mas nada 100%. Foi aí que aconteceu o convite para Curitiba. Então a Priscila melhorou mais ainda. Em Curitiba tem um tumbl track bom, os aparelhos são bem melhores, e ela foi só melhorando. A Iriyna ajudou muito na paralela, aumentou a nota de partida dela. Em Curitiba eu não trabalhava, era só a Keli e a Iryina. Aí a gente veio pro Flamengo e ela ficou lá. Mas ela estava bem triste lá, porque eu sempre acompanhava e conversava com ela. Eu senti que não estava legal, que estava muito desmotivada. Vi ela numa competição e percebi que ela estava mal. Não estava tão forte e aquela aparência de atleta tinha sumido. Então ela acabou desabafando que não estava bem e que queria vir pro Flamengo. Agora ela está mais feliz. Ela acabou perdendo tempo por conta de uma lesão no ombro e por estar desmotivada. Eu treino ela pouco, porque fico mais com a Keli treinando as infantis e juvenis, mas moramos juntos, no mesmo apartamento aqui no Rio.
GBB: Uma vez o irmão da Priscila me disse que ela gosta muito de você e que você é uma referência forte, falando de ginástica, na vida dela. Que bom que deu tudo certo e ela está bem, já que hoje ela é uma das representantes do Brasil internacionalmente.
FP: Ela tem a mesma idade da Ana Cláudia, da Khiuani Dias, que eram as promessas. Mas eu pensava: “nossa, essa menina quer tanto, ela treina tanto, que eu acho que ela consegue!” Tanto queria que entrou pra seleção com essa geração. O difícil era você dizer que ela, com 13 anos, faria parte da seleção aos 16! Ainda bem que ela acreditou nisso. Ruim seria se eu falasse isso e isso não acontecesse. Ela é muito feliz, e eu também, por isso ter acontecido.
GBB: Como está o treinamento com as juvenis? Quem você acha que tem potencial dessa vez?
FP: Eu sou muito calejado com isso. Eu já vi muito talento, inclusive em Guarulhos, que não vingou. Mas essas meninas que eu temos agora, mais ou menos 8 meninas, todas tem chance de ser a próxima seleção. E tem outras que virão! Mas se você for fazer uma seletiva hoje, na categoria delas, essas estão entre as dez, doze melhores.
GBB: E a paralela?
FP: Paralela é difícil pra todas, não só apenas pras brasileiras. O diferencial lá de fora são os ginásios melhores, nos incentivos melhores, os espelhos melhores. Tudo é melhor pra ginástica de fora, que é mais bem vista lá do que aqui no Brasil. Aqui a gente tem que convencer as pessoas que a ginástica se começa aos 6 anos, e não com 14, ás vésperas de uma olimpíada. Começamos a obrigar todas as meninas a usarem luvas, mesmo pra aumentar o tempo de treino delas nos aparelhos, já que elas têm menos dor nas mãos. Estamos atrasados com relação á isso, já que todos os outros países usam. O Brasil deveria obrigar o uso nos campeonatos nacionais. Perderíamos um pouco de tempo no começo mas, a longo prazo, será melhor pra todos. Pras adultas, que já estão acostumadas, é inviável, mas pras pequenas, que estão começando agora, não. Eu acho que vale a pena, já que o atraso seria apenas na paralela, e não nos outros aparelhos. Na paralela não temos um plano B. Se a menina abre a mão ela fica dois dias sem treinar e perde muito tempo. Com a luva, se a menina faz 15 séries na semana, poderíamos aumentar pra 25, 30, e isso vai aumentar o resultado final dela.
Assitam agora á uma montagem que eu fiz a partir dos vídeos de treino delas nesse dia. Espero que gostem!
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