Novo salto de Sacramone
25 de maio de 2011Maria Livchkova
27 de maio de 2011No dia 15/05/2011, no intervalo da aula de sua pós-graduação, Heine Araújo cedeu um pouco do seu tempo para responder algumas perguntas para o blog. A ginasta falou sobre sua carreira, suas referências, suas conquistas e suas opiniões sobre a ginástica do país. Particularmente, essa foi a entrevista mais trabalhosa! Mas foi por um bom motivo: Heine forneceu vídeos pessoais das competições que ela participou. Gastei um tempo para editá-los, mas agora estão aí para vocês assistirem, curtirem e conhecerem a história dessa ex-ginasta que contribuiu e continua contribuindo muito com a ginástica do país.
GBB: Como foi sua iniciação na ginástica? Quais são as suas referências?
HA: Comecei por volta dos 3 anos, porque minha mãe não me aguentava mais em casa, eu era uma “capetinha”. Umas amigas em comum faziam ginástica na Academia Arruda e minha mãe resolveu tentar esta estratégia para me cansar um pouco. Com o tempo fui tendo grandes nomes como referência mas, com certeza, a Luisa Parente foi a primeira.
GBB: Qual foi seu momento mais importante na ginástica, sua maior conquista?
HA: Tenho duas. A primeira, com certeza foi os Jogos Panamericanos de 1999 em Winnipeg, toda delegação do Brasil, incluindo dirigentes, técnicos e médicos, ficaram surpresos com nosso resultado e nossa apresentação que, dentre as notas que contavam, foi a mais linda, modéstia parte. Essa equipe eu vou levar pra sempre no meu coração, éramos unidas, amigas, lutávamos umas pelas outras, nada de concorrência. Já a segunda, foi quando eu peguei o código de pontuação e vi meu sobrenome nele (ARAUJO). Apesar de eu só saber disso 1 ano após eu ter saído da ginástica, foi muito importante. Na época as dirigentes não me avisaram e nem me parabenizaram.
GBB: Eu assisti esse campeonato completo e dava pra ver a seriedade e a união estampadas em vocês. Foi isso que levou o Brasil, até então desconhecido, a subir no pódio? A que você atribui essa conquista?
HA: Acho que foi a união e o empenho de todos. Lembro que a nossa preparação foi feita no Flamengo pela Georgette e os demais técnicos da época, inclusive o meu, o maravilhoso Anatoly Selivanov. Não tínhamos dinheiro pra treinar, então, três meninas ficaram na minha casa e outras três na casa da Daniele Hypólito. Tivemos muito apoio dos nossos pais, e nossas mães foram cozinheiras, motoristas, camareiras e psicólogas de toda a equipe do Pan. Uma experiência que tinha tudo para dar errado, mas, graças a Deus, deu certo.
GBB: Você acha que parou cedo e/ou poderia ter contribuído mais com a ginástica do Brasil?
HA: Tenho certeza que sim, faltou um pouco de jogo de cintura dos meus treinadores da época. Eu nunca deixaria uma atleta minha sair naquele momento, tentaria de tudo para mantê-la.
GBB: Na época que você parou, a seleção permanente já estava estabelecida no Brasil. Você chegou a participar da seleção permanente? Qual a sua opinião sobre? Os aspectos foram mais positivos ou negativos?
HA: Sim, fui para Curitiba em janeiro de 2003, voltei em setembro de 2003 e parei em outubro de 2003. Foi exatamente por causa da seleção permanente que eu parei, já que eu tinha vivido anos muito bons na ginástica e, quando passei a treinar em Curitiba, eles modificaram todo meu esquema de treino. Eu não tinha mais 14 anos, já estava com 18 e fiquei preocupada quando o técnico responsável na época me disse que eu só começaria a ter resultado em 8 meses. Eu e a Daniele (que também foi e voltou na mesma época que eu) perdemos totalmente o nosso desempenho. Quero deixar claro que não sou contra a seleção permanente, mas as ginastas e clubes deveriam ter autonomia para escolher entre ir ou não, e não serem obrigadas a ir. Acho que é muito mais válido concentrar os períodos de treinamento e as visitas do(a) técnico(a) chefe a todos os clubes.
GBB: Durante esse tempo de seleção permanente, o Brasil perdeu vários talentos como, por exemplo, Merly de Jesus, Bruna Costa, Thais Cevada, Ana Paula Rodrigues…Hoje esses talentos podem estar fazendo falta. Por que você acha que isso aconteceu?
HA: Exatamente pelo que falei antes. Não foi só a Daniele e eu que perdemos nossos rendimentos, tiveram também as que se lesionaram absurdamente. Eu tinha uma lesão no ombro que era bursite enquanto eu estava em Curitiba e, quando cheguei ao treinamento do Cirque du Soleil, eles me mandaram de volta para operar o ombro devido o grau da lesão. A ideia de seleção permanente é boa, mas em países onde as meninas dependem disso para viver. Por que nos EUA funciona e não tem seleção permanente??? Porque também não faz parte da ideia deles. Cada cultura, povo, cidade, pais, é diferente, não adianta chegar com a cultura ucraniana e achar que vão mudar a história da Ginástica Artística no Brasil. Eles conseguiram mudar, por um único e breve momento, por 1 ciclo. E agora??? Cadê nossas ginastas para 2016… 2020? Onde e quando foi feita a atualização e cursos para nossos treinadores? Por que, se o esquema de treinamento ucraniano era tão bom, não passaram para nenhum treinador do Brasil, além dos que estavam diretamente com eles? São algumas perguntas que ninguém vai responder.
GBB: Você conseguiu nomear um exercício na ginástica antes mesmo de Daiane dos Santos, e pouca gente sabe disso. Independente desse reconhecimento, você se sente realizada com esse feito?
HA: Como eu já disse, sim, me sinto extremamente realizada. As pessoas tentaram de tudo, mas o que estava escrito ninguém pôde apagar. Sinceramente, não sei o que se passou pela cabeça das pessoas responsáveis para não me dizer, pois não falaram nada comigo. Eu tive que ir atrás e perguntar, e mesmo assim confirmaram que o elemento não tinha entrado. Enfim, está lá, é o que importa. Sempre tive que aprender a conviver com a falta de reconhecimento por parte de algumas pessoas da ginástica.
GBB: Com a estrutura e investimento da ginástica do Brasil de hoje, você acha que a Heine Araújo teria conseguido mais?
HA: Eu me arrependo de ter saído na época que saí, e hoje eu estaria ajudando a equipe do Brasil, como sempre fiz. As meninas de hoje e também as antigas parecem não saber do que passamos certas vezes para chegar onde chegamos. Não dão valor ao que elas têm hoje em relação do que tínhamos antes! Não entendo!
GBB: O que você faz agora? Como é sua vida pós ginástica?
HA: Pra variar, no outro dia após ter saído da ginástica eu já estava no ginásio auxiliando nos treinos. Passei pelo Flamengo, Fluminense, Rio Sport Center, mas acabei indo trabalhar com a Georgette Vidor nos projetos socais. Estava construindo uma equipe mirim na época, mas por corte de verbas tive que apenas exercer a função de Coordenadora técnica dos projetos e minhas meninas foram encaminhadas para a academia A! Body Tech, onde treinam até hoje com a Técnica e ex-ginasta Altair Prado. Desde março de 2010 a Georgette me convidou para auxiliá-la na coordenação da seleção brasileira feminina e estou aprendendo um pouco mais sobre o outro lado dos treinos, que é bem difícil também.
GBB: Auxiliando na coordenação das seleções você consegue dizer como está a estrutura e investimento da ginástica atual?
HA: COB, CBG, prefeitura do Rio e a Georgette estão correndo atrás para termos o Centro de Treinamento da Ginástica no Rio de Janeiro. Porém, sempre que o processo está quase fechado aparece um novo problema para ser solucionado, e estamos assim desde janeiro de 2011, quando já estava certa a inauguração.
Outro investimento que está sendo providenciado é a contratação de técnicos estrangeiros para auxiliar os técnicos Brasileiros na preparação da GAF, mas está difícil, estamos nas negociações desde julho de 2010 e nada está definido, são muitos os impasses.
GBB: Você acha que a equipe feminina e/ou masculina do Brasil conseguirá a vaga para as Olimpíadas, no ano que vem?
HA: Para os meninos está muito difícil a classificação por equipe, mas os ginastas individuais, como Diego Hypólito e Sérgio Sasaki estão bem focados e acredito que possam conseguir uma classificação individual. Quanto às meninas, acho que iremos para a repescagem em janeiro de 2012 para entrar entre as 12 equipes. Neste mundial acho difícil entrar entre as 8, mas não impossível. Tomara que eu me engane.
Para conhecer a ONG Qualivida, a que Heine se refere na entrevista, clique aqui. Lá você encontrará informações e vídeos das pequenas ginastas que ela treinou.
Abaixo, vídeos das séries de Heine, em todos os aparelhos.
Solo
Salto
Trave
Barras assimétricas