Durante o ultimo ciclo olímpico, nenhum movimento teve um fascínio tão forte
quanto o Amanar. Um salto extremamente difícil que vale 6,5 de nota de partida
(no CoP 2013-2016 esse salto foi rebaixado à 6,3 de nota de partida) e tem o
potencial de fazer uma grande diferença para qualquer equipe. Este é um salto da
família Yurchenko. O salto Yurchenko se inicia com a ginasta fazendo uma
rondada para o “trampolim” para, daí fazer um flic e apoiar as mãos na
mesa. A partir daí, no Amanar, a ginasta deve completar duas piruetas e meia,
durante o mortal esticado, até chegar ao chão. Para muitas ginastas, fazer só a dupla
pirueta já é um salto bem difícil de dominar. Adicionar mais meia pirueta é um feito bem mais difícil do que parece. Requer mais força (confira o post em que John Geddert discute esse salto com Jordyn Wieber), para que você tenha mais
tempo de vôo e possa completar a meia pirueta extra. Requer boa consciência
aérea. A ginasta aterrissa de frente, o que é uma chegada cega (“blind
landing”), ou seja, a ginasta não vê o chão antes de aterrissar.
Em 2010, a equipe Russa ganhou a final por equipes do Campeonato Mundial graças a dois, embora feios, Amanares – um da
Tatiana Nabieva e outro da Aliya Mustafina. Aliya também ganhou o ouro no individual
geral, com um ponto de diferença da segunda colocada, Jiang Yuyuan, impulsionada
pela sua grande vantagem no salto e também sua versatilidade como ginasta. No
ano seguinte, entretando, Aliya rompeu seu um ligamento do joelho competindo esse mesmo salto no
Campeonato Europeu – provando que apesar deste salto dar uma grande vantagem à
ginasta ele também é um elemento extremamente perigoso de competir.
O que nos leva à questão: porque
ginastas treinam esse salto, e numa quantidade que vem crescendo rapidamente?
Claro, realizá-lo representa uma grande vantagem: 6,5 de nota de partida no ultimo ciclo olímpico era
0,7 pontos a mais do que o yurchenko com dupla pirueta (5,8 de nota D), isso quando competido corretamente. Será que treinar e
competir um salto que pode resultar em uma lesão séria realmente vale a pena?
Para a maioria das equipes a resposta é sim. Dê uma olhada na equipe dos EUA,
por exemplo. Jordyn Wieber e McKayla Maroney já estavam competindo esse salto
com 13 anos, em 2009. Compare isso com a “dona” do salto, Simona Amanar, que
competiu pela primeira vez este salto nos Jogos Olímpicos de 2000 como uma
mulher, aos 21 anos de idade.
Apesar do salto da romena Simona Amanar não ser perfeito, foi um feito
incrível, para ela, competir um salto tão difícil, e ser a primeira mulher a
fazê-lo. Quando olhamos para trás, para a história da Simona no salto, não é uma
surpresa que ela tenha sido a primeira mulher a competir este salto: em 1996
ela foi campeã olímpica de salto, e em 1995 e 1997 ela foi campeã mundial neste
mesmo aparelho. Assim, era apenas uma questão de tempo para que ela chegasse a este nível.
Apesar de outras ginastas terem competido este salto com muito mais sucesso,
não podemos esquecer a bravura de Simona. Apesar de nunca ter vencido uma
final de salto usando o Amanar, sua compatriota, Monica Rosu, venceu a final
Olímpica de salto em 2004 apresentando um dos mais bem executados Amanar da história.
Ou seja: enquanto o risco da Simona não resultou em um ganho pessoal para ela,
significou um ouro Olímpico para a Romênia!
Quando questionadas, muitas ginastas
vão mencionar Cheng Fei e McKayla Maroney como sendo as que melhor apresentam
este salto. Cheng Fei dominou o salto por 3 anos e foi campeã mundial, neste
aparelho, em 2005, 2006 e 2007. O Amanar da McKayla é praticamente igual – a
campeã mundial de salto em 2011 maravilhou fãs, treinadores e árbitros de
ginástica com a absurda altura que chega depois de tocar a mesa, e com sua execução
que beira a perfeição.
Além disso, tem uma quantidade absurda de ginastas juvenis dos EUA
competindo com este salto – como as campeãs americanas juvenis de 2012, Lexie Priessman (no individual geral e solo) e Simone Biles (salto). Outras americanas que competiram com
este salto foram Kyla Ross, Alexandra Raisman, e, é claro, a Campeã Olímpica
no Individual Geral de 2012, Gabrielle Douglas. A Rússia demonstrou um certo
desespero por ginastas que conseguissem competir o Amanar antes das Olimpíadas.
Das quatro principais equipes – EUA, Rússia, Romênia, e China – a única equipe
que não estava desesperada atrás de Amanares foi, ironicamente, a Romênia.
Enquanto Simona Amanar assumiu um risco enorme quando ela competiu este salto pela primeira vez em 2000, a Romênia não produziu uma ginasta com um Amanar neste ciclo olímpico. Apesar de existirem rumores de que Larisa Iordache e Sandra Izbasa (Campeã Olímpica de Salto de 2012) estavam treinando este salto,
nenhuma romena apresentou o salto nas Olimpíadas.
Apesar do valor de dificuldade do
salto ter diminuído, não há dúvidas que as equipes continuarão a procurar
ginastas que consigam executar um Amanar. Essa determinação que as equipes
estão demonstrando para estar no pódio é devido a uma mistura de resultados. Nesse ciclo olímpicos nós assistimos McKayla Maroney apresentar incríveis Amanares,
um atrás do outro – incluindo seu salto perfeito na final olímpica por equipes. Mas também assistimos Aliya Mustafina sofrer uma lesão muito séria
apresentando o mesmo salto. Isto tende a continuar – esta tendência de arriscar
tudo para a glória – e deve vir com um custo elevado, mas é certo que veremos
algumas ginastas incríveis ao longo do caminho. Ainda assim, às vezes temos
que analisar se vale ou não o risco – é sempre 50% de chance de testemunharmos
uma lesão ou algo incrível. Este extraordinário, extremamente difícil e
arriscado salto não nos oferece nada, além disso.
Alguns Amanares ao longo da história
O primeiro de todos, feito por Simona Amanar.
Cheng Fei
Jade Barbosa
McKayla Maroney
Monica Rosu
Jordyn Wieber
Aliya Mustafina
Tatiana Nabieva
Artigo de Rachel MacGrath. Originalmente postado em http://www.thecouchgymnast.com/?p=7152. Tradução e colaboração de Isadora Córdova.